Foto: Ismael Sousa
A crise na hemodiálise em Mossoró, que ganhou repercussão no estado no fim de março, resultou em três mortes e ainda levanta dúvidas sobre o que, de fato, provocou os óbitos. Cerca de um mês após a interdição, o Centro de Diálise de Mossoró (CDM) foi liberado nesta sexta-feira (24) para retomar os atendimentos, mas sem a divulgação oficial das causas do ocorrido.
O caso teve início no dia 25 de março, quando duas pacientes morreram durante sessões de hemodiálise na unidade. As vítimas, Raquel Ferreira e Iraci Inácio, naturais de Assú, passaram mal após intercorrências durante o procedimento. No dia do ocorrido, a clínica divulgou uma nota informando que um aparelho que fazia a osmose reversa teria apresentado falhas no momento do atendimento.
No dia seguinte, uma terceira paciente, de Grossos, a Marivânia Mendonça, morreu após complicações associadas à interrupção do tratamento, ampliando a gravidade da crise e a pressão sobre o sistema de saúde.
A Vigilância Sanitária do Município determinou a interdição imediata da clínica ainda no dia 25. A medida desencadeou uma operação emergencial para garantir a continuidade da assistência aos pacientes renais crônicos da região.
Durante o período de fechamento, dezenas de pacientes foram redistribuídos para outras unidades. Parte da demanda foi absorvida pelo Hospital do Rim de Mossoró, enquanto outros pacientes precisaram ser encaminhados para clínicas em municípios como Assú e até outras regiões do estado. A Sesap também articulou a reativação de serviços para reduzir o impacto da desassistência.
O caso levou à abertura de investigação pela Polícia Civil. O inquérito está sob responsabilidade da 38ª Delegacia de Polícia, que apura as circunstâncias das duas mortes ocorridas dentro da clínica. Segundo o delegado responsável, José Vieira, apenas os óbitos registrados durante o procedimento de hemodiálise estão sendo investigados no âmbito policial.
Paralelamente, a Vigilância Sanitária iniciou inspeções técnicas na unidade interditada. Amostras foram coletadas e encaminhadas para análise do Laboratório Regional de Saúde Pública de Mossoró (Larem), mas o laudo conclusivo ainda não foi divulgado.
“Em relação a qualidade da água, eu não posso afirmar o que houve, deve ser a nível de laboratório e a nível de procedimento. O que posso dizer é que quando recebemos a denúncia, no primeiro dia, quando a gente chegou, já tinha sido uma tentativa de sanar a causa. Então o sistema de tratamento de água já teria sido aberto. A primeira coleta não foi fidedigna. Então já está aberto o sistema de tratamento e distribuição de água”, disse Keila Brandão, coordenadora da Vigilância Sanitária de Mossoró.
Segundo Keila, a clínica foi autuada e deverá apresentar defesa aos órgãos competentes. A partir disso, será emitido um parecer técnico dos fiscais, que deve apontar as causas do problema. Ainda de acordo com Keila, a unidade poderá recorrer à Justiça, caso haja necessidade.
"O nosso processo administrativo sanitário, vamos frisar que, a gente desinterditou, mas não acabou. O nosso processo administrativo sanitário continuará até o rito final, e paralelamente vão ocorrer as investigações, civil, criminal, e eles vão responder administrativamente, civilmente e o que caber a eles, vão responder nas outras instâncias", disse.
A coordenadora afirmou que comunicou à Vigilância Sanitária do Estado sobre a desinterdição, para que a Sesap proceda com a regulação de pacientes para a retomada das hemodiálises, já que é um serviço de alta complexidade e o contrato é com o Governo do Estado com o estabelecimento.