O que para muitas crianças dos anos 1990 era apenas uma simples figurinha colecionável de chocolate se transformou, décadas depois, na realização de um sonho. O médico ortopedista e traumatologista Ariel de Lima Diego, conhecido entre amigos como “Prinspo”, alcançou o topo do Monte Everest, a montanha mais alta do planeta, situada na Cordilheira do Himalaia, no Nepal, a 8.848 metros de altitude. A conquista aconteceu às 3h da madrugada da última terça-feira (19), no horário local do Nepal.
Natural de Russas, no Ceará, mas com forte atuação profissional em Mossoró, Ariel integra a equipe médica do setor de urgência do Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM), além de lecionar na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Conhecido pela paixão por esportes radicais e aventuras em ambientes extremos, ele descreve a subida ao Everest como o maior desafio de toda a sua trajetória pessoal e esportiva.
Em entrevista exclusiva concedida durante o deslocamento do Acampamento Base rumo a Katmandú, capital nepalesa, o médico relatou que a preparação exigiu meses de treinamento físico e mental, além de cerca de dois meses vivendo em barracas no Himalaia para aclimatação antes da escalada definitiva. A expedição foi acompanhada por outros brasileiros apaixonados por montanhismo e também por seguidores nas redes sociais, que acompanharam em tempo real a evolução dos escaladores no Himalaia.
A esposa de Ariel, a médica Lana Lacerda de Lima, que também atua no Hospital Regional Tarcísio Maia, acompanhou toda a jornada de perto. “Literalmente, foi a maior aventura da minha vida. O negócio foi alto mesmo, mas eu tive muito apoio. Contei com muitos amigos. Lana me ajudou bastante na preparação, tanto física quanto mental. O principal, que a gente acha que é fácil, mas passar dois meses numa tenda faz o mental sofrer bastante.”, contou.
Acostumado ao clima quente do semiárido nordestino, Ariel enfrentou temperaturas extremas durante a expedição. Segundo ele, os termômetros chegaram próximos dos 40 graus negativos em alguns trechos da montanha. “Eu moro em Mossoró e me deparei com um frio da bixiga. Comida só o básico e muito restrita. Aqui no Nepal o pessoal é praticamente vegetariano, e o acesso à carne, que a gente está acostumado, é muito complicado”, relatou.
Mas o sonho que levou o médico ao teto do planeta começou muito antes da preparação técnica. Ainda na infância, Ariel colecionava figurinhas do antigo Chocolate Surpresa, da Nestlé. Em uma das primeiras embalagens que comprou, veio justamente a imagem do Monte Everest. A fotografia da montanha ficou marcada em sua memória.
“Essa viagem eu não planejei agora. Desde criança eu tenho esse sonho. É até engraçado, porque me lembro que comprei um chocolate e a primeira figurinha que tirei foi a foto do Everest. Aquilo ficou na minha cabeça até eu conseguir ter condições financeiras, mentais e físicas para aguentar essa aventura”, afirmou.
Em tom descontraído, ele ainda brincou ao comentar o impacto que sonhos de infância podem provocar. “Um alerta para as mães do Rio Grande do Norte: cuidado com o que vão dar para seus filhos, porque eles podem alimentar um sonho meio perigoso”, disse.
A simbologia da jornada ficou ainda mais evidente no momento da chegada ao cume. Ariel levou consigo a mesma figurinha que despertou seu sonho décadas atrás. Também carregou exemplares dos livros “O Pequeno Príncipe” e “Olhai os Lírios do Campo”, clássico romance de Érico Veríssimo. Os objetos apareceram em fotografias e vídeos publicados nas redes sociais logo após o ataque ao cume. “Literalmente minha maior aventura. Obrigado de verdade a todos pela torcida. Claro que o Pequeno Príncipe estava comigo”, escreveu em uma das postagens.
Everest
Considerado o maior desafio do montanhismo mundial, o Monte Everest reúne condições extremas e riscos permanentes. Acima dos 8 mil metros está a chamada “Zona da Morte”, região onde os níveis de oxigênio são insuficientes para a sobrevivência prolongada do corpo humano.
Além da baixa oxigenação, os escaladores enfrentam temperaturas congelantes, ventos violentos, risco de hipotermia, edema cerebral, edema pulmonar e travessias por geleiras e paredões de gelo. A escalada até o topo costuma durar semanas e exige preparo técnico rigoroso, resistência física e controle emocional. Para Ariel, porém, cada obstáculo superado carregava um significado maior: transformar um sonho infantil em realidade.
Da pequena figurinha retirada de um chocolate à bandeira fincada no ponto mais alto da Terra, o médico que atua em Mossoró agora passa a integrar o seleto grupo de brasileiros que conseguiram alcançar o topo do Everest, uma conquista rara, marcada pela coragem, disciplina e persistência diante dos limites humanos.
