A semana que deveria ser de comemoração política para o vereador de Mossoró Cabo Deyvison (PL), ex-policial do COTAR, a tropa de elite da polícia cearense, terminou marcada por uma tragédia que ganhou repercussão estadual e nacional. Na noite da última segunda-feira (15), o parlamentar foi alvo de um atentado a tiros em frente à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Alto de São Manoel, enquanto realizava uma fiscalização. O ataque deixou ferido o vereador e matou seu assessor e colaborador próximo, Allyson Diego, atingido na cabeça.
Nos dias seguintes, uma força-tarefa envolvendo as polícias do Rio Grande do Norte e do Ceará resultou na prisão de suspeitos apontados como participantes da ação criminosa. Dois deles foram capturados em Beberibe, no litoral cearense. Durante as investigações, a polícia localizou um PIX de R$ 10 mil em um dos celulares apreendidos, valor que pode ter sido utilizado para dar suporte logístico aos criminosos. Também foi encontrada, enterrada em uma área de mata na região da Maísa, uma bolsa contendo um fuzil e uma pistola. Outras pessoas chegaram a ser detidas em Mossoró, mas acabaram liberadas por falta de provas.
Recuperando-se após procedimento cirúrgico e já em casa, Cabo Deyvison concedeu entrevista à reportagem do Blog Ismael Sousa e afirmou acreditar que o atentado está relacionado à sua atuação pública.
"Eu acredito que estamos diante de um crime relacionado à minha atuação como parlamentar. Ao longo do mandato, realizamos fiscalizações, denúncias e enfrentamos interesses poderosos, além do combate firme ao crime organizado. Por isso, entendo que o atentado tem relação direta com o trabalho que venho desenvolvendo em defesa da população", afirmou.
Apesar da convicção, o vereador disse que todas as linhas investigativas precisam ser consideradas. "Nenhuma linha de investigação pode ser descartada. Todas as hipóteses precisam ser apuradas com profundidade, inclusive a participação de organizações criminosas, interesses políticos ou qualquer outra motivação que possa ter contribuído para esse atentado."
A parte mais difícil da entrevista, porém, ocorreu quando o parlamentar falou sobre Allyson Diego. Companheiro de trabalho e presença constante em suas atividades políticas, ele morreu ainda no local do ataque.
"Essa é, sem dúvida, a parte mais difícil de tudo isso. Eu sobrevivi ao atentado, mas perdi um amigo, um irmão de caminhada, alguém que estava ao meu lado diariamente e que acreditava no mesmo propósito que eu", declarou.
Segundo o vereador, a memória do assessor passa a representar uma responsabilidade ainda maior em sua trajetória pública. "Honrar a memória de Diego significa continuar lutando pelas causas em que acreditávamos, continuar defendendo a população e continuar buscando justiça."
Mesmo após o atentado, Deyvison garante que não pretende mudar sua forma de atuação. Para ele, o episódio reforçou a necessidade de manter o trabalho de fiscalização e cobrança ao poder público. "Independentemente de quem esteja por trás desse atentado e de qual tenha sido a motivação específica, uma coisa é certa: eu não vou recuar. Eu sempre disse que o crime organizado cresce quando encontra o silêncio, o medo e a omissão. E eu não fui eleito para me omitir."
A poucos meses do início do processo eleitoral, o caso também reacendeu o debate sobre segurança pública e os desafios enfrentados por agentes públicos que atuam em áreas de conflito social e criminal. Para o vereador, o episódio ultrapassa sua experiência pessoal.
"Quando um parlamentar, um agente público, um policial, um jornalista ou qualquer cidadão sofre ameaças por cumprir seu dever, não estamos diante de um problema individual. Estamos diante de um problema que afeta a própria democracia e o Estado de Direito."
Antes do atentado, uma pesquisa eleitoral havia colocado Cabo Deyvison entre os nomes mais lembrados para uma vaga na Câmara dos Deputados. Agora, ele afirma que a violência sofrida apenas reforçou aquilo que considera sua principal bandeira política. "Mas se existe algo que tudo isso reforçou em mim, foi a certeza de que a minha principal bandeira continuará sendo a segurança pública. Hoje, mais do que nunca, eu tenho a convicção de que precisamos enfrentar esse problema de frente."
Ao final da entrevista, o parlamentar deixou uma mensagem de perseverança e afirmou que pretende seguir sua trajetória política sem se intimidar. "Talvez uma única pessoa não consiga mudar toda uma realidade sozinha. Mas toda grande transformação começa quando alguém decide dar o primeiro passo. Como diz o ditado, uma andorinha sozinha não faz verão. Mas ela anuncia a chegada dele."