Por mais que eu admire o Mossoró Cidade Junina e reconheça seu impacto econômico, não há como normalizar o absurdo que vivemos. Uma cidade com a arrecadação de Mossoró, que se orgulha de patrocinar um dos maiores eventos do Nordeste, não consegue garantir algo básico que é o direito à saúde de suas mulheres. Há nove meses, a prefeitura não repassa pagamentos a hospitais, e cirurgias ginecológicas estão paradas. Mulheres contraindo empréstimos, vendendo bens ou viajando para cidades vizinhas para poder operar.
Curioso é que no Mossoró Cidade Junina, as principais atrações só sobem ao palco com o cachê pago na conta. Sem dinheiro, não tem show. E ninguém se espanta. Mas na saúde, a lógica é inversa. Não importa se o pagamento não chega, o paciente que espere. A vida pode ficar em suspenso, desde que o “arraiá” esteja de pé.
Não se trata de discurso hipócrita de “pão e circo”. Longe disso. Mas se o povo não tem nem o pão, no caso, a cirurgia que devolve dignidade e qualidade de vida, não deveria se dar ao luxo de investir tanto no circo.
O MCJ pode ser um orgulho cultural e econômico, mas não pode ser prioridade absoluta de uma gestão que deixa a fila da dor aumentar enquanto a fila do camarote segue cheia.
É lamentável.