O crescimento das apostas esportivas online no Brasil trouxe à tona um problema que preocupa cada vez mais especialistas em saúde mental: a ludopatia, também conhecida como transtorno do jogo. Reconhecida pela psiquiatria como uma dependência comportamental, a doença pode levar pessoas a perderem o controle sobre as apostas, acumularem dívidas, comprometerem o patrimônio e, em casos extremos, cometerem crimes na tentativa de recuperar o dinheiro perdido.
Em Mossoró, um caso chamou a atenção. Um homem se apresentou espontaneamente à Delegacia após confessar ter desviado cerca de R$ 160 mil da empresa onde trabalhava.
Para o médico psiquiatra Dr. Daniel Sampaio, é fundamental diferenciar o jogo recreativo da doença. “A principal diferença está no controle. Quem joga por lazer consegue estabelecer limites, interromper a atividade quando deseja e não compromete sua vida financeira, familiar ou profissional. Já a pessoa com ludopatia perde esse controle. Ela passa a jogar cada vez mais, sente necessidade de apostar valores maiores para obter a mesma sensação de prazer, tenta parar e não consegue, mente para familiares sobre o tempo ou o dinheiro gasto e continua jogando, mesmo diante de prejuízos importantes. Outro sinal de alerta é quando o jogo deixa de ser diversão e passa a ser uma necessidade, ocupando grande parte do tempo, da rotina e causando graves prejuízos financeiros”, explica.
Segundo o especialista, a ludopatia provoca alterações nos mecanismos cerebrais de recompensa semelhantes às observadas na dependência química. “A ludopatia é um transtorno reconhecido pela psiquiatria e envolve alterações nos circuitos cerebrais relacionados à recompensa, ao prazer e ao controle dos impulsos. Cada aposta pode gerar a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de recompensa, reforçando o comportamento de continuar jogando. Com o tempo, a pessoa pode perder a capacidade de avaliar riscos de forma adequada e agir impulsivamente.”
Ele destaca que, nos quadros mais graves, a compulsão pode levar a consequências dramáticas. “Em casos graves, infelizmente, isso pode levar ao endividamento, à venda de patrimônio, à omissão de informações para familiares e até ao desvio de recursos, na tentativa desesperada de recuperar as perdas. Esses comportamentos não são justificáveis, mas refletem a gravidade de um transtorno que precisa de tratamento. A ludopatia apresenta mecanismos semelhantes aos observados na dependência de álcool e outras drogas.”
As plataformas digitais potencializam esse risco. De acordo com Dr. Daniel, o acesso permanente às apostas cria um ambiente favorável ao desenvolvimento da dependência. “As apostas online apresentam características que aumentam significativamente o risco de dependência. A facilidade de acesso, a possibilidade de jogar a qualquer hora, a rapidez entre uma aposta e outra, além das notificações constantes e das estratégias de marketing, favorecem um comportamento repetitivo e impulsivo. Quanto maior a exposição e mais fácil o acesso, maior tende a ser o risco, especialmente entre pessoas mais vulneráveis, como adolescentes, jovens e indivíduos com histórico de impulsividade, ansiedade ou outras dependências.”
Apesar da gravidade do transtorno, o psiquiatra ressalta que existe tratamento e que o diagnóstico precoce aumenta as chances de recuperação. “Sim. A ludopatia tem tratamento e, quanto mais cedo ele for iniciado, melhores costumam ser os resultados. A abordagem depende das características e da gravidade de cada caso, mas geralmente envolve avaliação psiquiátrica, psicoterapia, participação em grupos de autoajuda e estratégias para limitar o acesso às plataformas de apostas. O apoio da família e a reorganização da vida financeira também fazem parte do tratamento.”
Ao final, ele reforça uma mensagem que ajuda a combater o preconceito em torno da doença: “A ludopatia não é falta de caráter nem de força de vontade; é um transtorno de saúde mental que pode e deve ser tratado.”