Se tem uma coisa que a política brasileira nos ensina todo santo dia é que o discurso aceita qualquer papel, mas a realidade cobra a conta de forma avassaladora. O que aconteceu em Natal no último dia 25 não é só um absurdo isolado, é o retrato cuspido e escarrado da mais pura hipocrisia de quem se diz dono da moralidade e da defesa das minorias.
Vamos aos fatos: a deputada estadual Divaneide Basílio, do PT do Rio Grande do Norte, foi agredida por um segurança — um policial federal da escolta — ninguém menos que da primeira-dama, Janja da Silva. E onde foi isso? Num evento pomposamente batizado de "Ato das Mulheres", cujo objetivo era, pasmem, debater justamente o combate à violência contra a mulher. O segurança simplesmente meteu a porta na cara da deputada, que ainda por cima estava com uma criança no colo.
Se a gente olhar para a reação oficial, dá até vontade de rir para não chorar. A nota do PT do Rio Grande do Norte veio com conversa mole de manual, dizendo que "episódios como este demonstram que o machismo ainda se manifesta nos mais diversos espaços da sociedade". Ora, façam-me o favor! Que malabarismo sociológico é esse para não dizer o óbvio? Não foi "a sociedade" abstrata que agrediu a deputada; foi a própria equipe de segurança da cúpula do governo federal deles! A ginástica mental para poupar a imagem da primeira-dama e do governo é de um cinismo que ultrapassa qualquer limite.
Agora, vamos fazer aquele exercício básico de honestidade que essa turma odeia: e se fosse na gestão do Bolsonaro? Se um segurança da Michelle Bolsonaro batesse uma porta na cara de uma deputada de esquerda, com uma criança no colo, o Brasil vinha abaixo. O consórcio de imprensa faria plantão de 24 horas, os artistas iam chorar no Instagram, o STF seria acionado em cinco minutos por "atentado à democracia e às mulheres" e o termo "fascismo" seria repetido até cansar. Seria o escândalo do século, com direito a pedido de impeachment e discursos inflamados sobre a "violência de Estado contra o gênero feminino".
Mas, como o algodão entre os cristais aconteceu no quintal deles, o tom muda. O bofetão institucional vira "manifestação do machismo estrutural na sociedade". A agressão física vira um "incidente a ser mitigado". Onde estão as grandes vozes do feminismo de diretório para exigir a demissão imediata ou cobrar explicações contundentes da primeira-dama? Sumiram. O silêncio e o pano passado por essa militância seletiva mostram que, para esse povo, a defesa da mulher só vale se a agressão vier do lado de lá. Quando vem do lado de cá, a gente finge demência e bota a culpa no "sistema". Uma vergonha completa.