Por: Ismael Sousa
Hoje em Mossoró, celebramos os 96 anos de resistência da cidade contra o Bando de Lampião. À época, o temido cangaceiro exigiu o pagamento de 400.000 (quatrocentos mil) contos de réis para evitar um ataque à cidade. Diante da recusa e da falta de apoio do Estado, o então prefeito Rodolfo Fernandes mobilizou a população, que fortemente armada, ergueu trincheiras em vários pontos, sendo uma delas na Igreja São Vicente.
Na tarde de 13 de junho de 1927, Lampião invadiu a cidade, dando início a um combate que durou aproximadamente duas horas. Com a população bem armada, o bando foi obrigado a se retirar após um intenso tiroteio. Houve baixas entre os cangaceiros, e Jararaca foi baleado, preso e morto logo em seguida.
Se esse evento ocorresse nos dias atuais, os valentes e corajosos resistentes que se armaram para proteger sua cidade e seu povo seriam detidos. A Comissão de Direitos Humanos seria acionada para investigar as condições precárias da prisão de Jararaca, na antiga Cadeia Pública que hoje funciona o Museu Municipal. Manifestações surgiriam nas avenidas com militantes erguendo cartazes clamando "Jararaca Livre" ou "Jararaca Vive".
A Rede Globo enviaria uma equipe para Mossoró e produziria uma extensa reportagem na cidade, destacando a alta taxa de letalidade da população armada. Essa matéria teria cerca de 12 minutos de duração no programa Fantástico. O presidente da República se pronunciaria e diria que Lampião queria roubar apenas para tomar uma "Pingazinha".
Comerciantes que adquiriram armas para proteger seus estabelecimentos seriam alvos de operações da Polícia Federal. O prefeito Rodolfo Fernandes seria chamado de "fascista" e "genocida" por militantes de partidos de esquerda, e o PSOL e PT pediriam a sua cassação na Câmara Municipal.
Os tempos atuais não permitem atos de bravura e resistência. Os heróis seriam considerados criminosos, enquanto os bandidos seriam vistos como vítimas da sociedade. E nem precisa ir longe para comprovar. Isso se manifesta até mesmo no Dia de Finados, quando o túmulo de Jararaca é cultuado, recebendo homenagens e orações no Cemitério São Sebastião, enquanto o túmulo de Rodolfo Fernandes, o líder dessa resistência, permanece esquecido por sua própria população.