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“Com a terceirização não se tem uma relação direta com o trabalhador”, avalia procurador do MPT em Mossoró

“Com a terceirização não se tem uma relação direta com o trabalhador”, avalia procurador do MPT em Mossoró

Terceirização é um tema polêmico e que traz vários questionamentos. O projeto que permite a terceirização de todas as atividades foi aprovado ontem, 22, na Câmara dos Deputados e, claro, gerou vários questionamentos e críticas nas redes sociais. Gente pedindo a cabeça de deputado numa estaca, outros ponderando e avaliando que a proposta é boa para a retomada da geração de emprego.

Ano passado, ainda quando trabalhava em um jornal local, tive a oportunidade de entrevistar o procurador do Ministério Público do Trabalho, Gleydson Gadelha, para tirar dúvidas e responder aos vários questionamentos acerca do tema. Ele se mostrou preocupado com a proposta, detalhando como a terceirização pode ser prejudicial para o trabalhador.

Para Gadelha não resta dúvidas: a terceirização é, de certo modo, um mecanismo das empresas lucrarem em cima das garantias e dos diretos dos trabalhadores, criando uma barreira que dificulta o acesso a esses benefícios, ocasionando em uma precarização no serviço e na relação com o trabalhador.

Relembre a entrevista na íntegra concedida ao Jornal Mossoró Hoje em abril de 2016:

Por: Ismael Sousa

O Projeto de Lei número 4.330/2004, conhecido como Projeto de Terceirização, que teve o texto principal aprovado no dia 8 de abril de 2015 na Câmara dos Deputados, está dividindo opiniões e colocou em lados opostos dois argumentos: os contrários alegam que haverá precarização das relações de trabalho, enquanto os favoráveis falam em modernidade e competitividade da economia brasileira.

O projeto, que tramita na câmara dos deputados a dez anos prevê a contratação de terceirizados para qualquer atividade dentro das empresas, tanto na iniciativa privada, como nos órgãos públicos. O texto aprovado estabelece que a empresa que contrata tem obrigação de fiscalizar se a terceirizada paga os direitos dos funcionários. O procurador do Ministério Público do Trabalho em Mossoró, Gleydson Gadelha, conversou com o MOSSORÓ HOJE e tirou algumas dúvidas sobre o polêmico tema.

Na visão do procurador, é desnecessário a elaboração de um projeto no âmbito atual, com as normas atuais. Ele entende que a terceirização deve ser encarada como uma “exceção”, principalmente para casos em que há uma situação especializada que não tenha justificativa para se manter um corpo de trabalhadores para fazer aquela função. Em outro caso, ele acrescenta que a medida deve ser adotada em casos onde se tem uma demanda pequena.

“Todas as nossas proteções foram pensadas para você ter uma relação direta entre o trabalhador e o empregador. A terceirização cria um intermediário, uma terceira pessoa no meio e fica entre o trabalhador e quem está usando o serviço. A insistência dessa terceira pessoa tem que ser justificada nos casos que falei, pois em alguns casos essa pessoa vai lucrar o que o trabalhador lucraria, ou seja, ela vai servir para diminuir o ganho do trabalhador”, explicou Gledson.

O procurador destaca que o número elevado de serviços terceirizados no país é, de certo modo, um mecanismo das empresas lucrarem em cima das garantias e dos diretos dos trabalhadores. Para Gledson, a terceirização cria uma barreira que dificulta o acesso a esses benefícios e acaba ocasionando uma precarização no serviço e na relação com o trabalhador.

“O nosso sistema foi pensado com um conjunto de garantias para que o trabalhador conseguisse se relacionar diretamente com o empregador, com decimo terceiro, férias, pessoalidade, pois estamos lidando com a pessoa e não com a máquina. E quando se coloca uma terceirização no meio, não se tem uma relação direta com o trabalhador, mesmo que ele esteja trabalhando para mim. Se eu não estiver gostando, posso reclamar com a empresa que tira ele e coloca outro. Com esse exemplo, o que acontece é que a terceirização acaba precarizando o serviço”, disse o procurador.

Terceirização em Mossoró

A nível local, Gledson explica que, historicamente, Mossoró é uma cidade que tem muitos serviços terceirizados. Ele se baseia no sistema de produção de Petróleo em que, desde o início dos anos 1980, época em que foi descoberto o ouro negro na região, a Petrobras intensificou a exploração e resolveu usar como ferramenta a terceirização. O procurador enfatiza que o Ministério Público do Trabalho banalizou esse modelo, e vem atuando para combater esse tipo de serviço.

O procurador ressaltou que o MPT atuou entrando com ações e conseguindo, inclusive, alguns termos de ajustes de conduta a nível nacional, com o aumento do número de concursos para engenheiros e outros cargos dentro da estatal. Mesmo diante da atuação do MPT, e um pouco antes da crise da exploração do petróleo na região, o procurador cita que havia uma proporção de 4 terceirizados para cada um efetivo dentro da Petrobras. Ele ressalta que houve uma diminuição desse comparativo porque os efeitos dessa crise ainda não estão sendo contabilizados de forma transparente.

Gleydson explica que a forma de exploração por terceirização é tão “precarizante” que na crise é a primeira a ser atingida, já que o trabalhador não tem segurança da continuação do trabalho. Ele disse que que antes da crise, os dados mostravam que o trabalhador brasileiro tinha uma relação que durava em média 5 anos e dois meses. Já a média do trabalhador terceirizado era de apenas 2 anos e quatro meses, ou seja, menos da metade do tempo médio de duração de uma relação de um trabalhador direto.

“Quando está tudo bom, essas empresas, que estão em um sistema de exploração muito intenso e trabalham com uma margem de lucro muito pequena, entram em falência e o funcionário consegue emprego em outra empresa. Então o dano não é tão perceptível, apenas naquele trabalhador que perde alguns direitos, mas se emprega de novo. O problema é quando deixou de ter o pleno emprego, pois o trabalhador sai de uma empresa e continua desempregado. Com isso, estamos criando um exército de desocupados em Mossoró”, avaliou com preocupação o procurador.

Diante da situação, o Ministério Público do Trabalho desenvolveu uma pratica de intervir quando a empresa começa a dar sinais de que não vai bem financeiramente. Gleydson explica que o MPT realiza uma intervenção preventiva, e analisa a situação para garantir os direitos desses trabalhadores terceirizados. Uma das medidas é o bloqueio de créditos, caso tenha a receber da empresa contratante, através de medida judicial. Se a situação da empresa estiver bastante deteriorada, o MPT se antecipa e assegura todos os créditos para o trabalhador.

Gleydson destaca que as principais reclamações que chegam ao MPT são a jornada de trabalho, problemas salarias e de rescisão de contrato, já que as empresas que entram em falência não têm dinheiro em caixa para quitar esses débitos com os trabalhadores. Outro problema citado pelo procurador é em relação a saúde do trabalhador. Gleydson explica que na maioria das vezes, o funcionário que atua em uma terceirizada não tem a mesma formação em relação a um trabalhador de uma empresa que incentiva e investe na qualificação do seu quadro de funcionários.

“O trabalhador que sai de uma terceirizada e entra em outra não tem tempo de passar dois ou três meses estudando ou fazendo cursos na área dele. Ele faz um curso base apenas para se qualificar como técnico, e acaba não se qualificando em cursos relacionados à saúde e segurança. Acabam presos nas questões técnicas, e não nas questões técnicas de segurança, pois, tradicionalmente, isso não é muito valorizado. Quando se vê um grande acidente, a maioria das vítimas são de terceirizados por conta dessas questões”, finalizou o procurador.